Série sobre Gorender
Continuando
os comentários sobre este
livro revelador de Jacob Gorender,faço um outro artigo sobre uma questão
muito importante do marxismo
brasileiro e universal,que recende das
linhas do livro:o diletantismo,uma das acusações mais cáusticas da
direita.
Em função
da perda
de credibilidade do marxismo
por causa dos descaminhos da URSS e do Stalinismo, a capacidade de
cooptação das massas por este movimento diminuiu terrivelmente ,exceto
nos países em que houve uma dissensão
declarada com o que acontecia
lá,Áustria,Iugoslávia(Tito) e ,principalmente,Itália(através da
politica do socialismo italiano de Togliatti).
O empedernimento dos demais
partidos em seguir a ortodoxia
soviética,apesar dos crimes,delirando
na maionese da “ciência marxista-leninista”,os levou a perder mais e
mais adeptos.
Aqui no
Brasil,não foi diferente.Em plena época
do “ front populaire”,a aliança com os
partidos não –comunistas para barrar
o fascismo(depois dos
erros de 1933,que permitiram a
ascensão de Hitler),houve uma tentativa
de revolução ,em 35,com a liderança
contestada de Prestes(Astrojildo Pereira
não aceitou a sua entrada no PCB,que
foi imposta pela internacional
comunista,pela URSS,por Stálin)que prejudicou a História do PCB para sempre e ,em grande
parte,justificou a cassação do Partido
em 1948.
Estes erros,não discutidos até
hoje ,puseram a impossibilidade de mais
pessoas entrarem para o Partido.Mas há outros erros:fazer uma aliança com Getúlio,aquele mesmo que mandou Olga Benário para os nazistas,afastou,para
sempre,outras centenas de militantes.E mais outros erros:muita gente acreditou na história de que era
tudo mentira o que a burguesia
dizia contra Stálin,mas em 56 o Partido(ou os Partidos
todos,inclusive o da URSS)teve que reconhecer que era verdade e muita gente ,novamente,saiu ,para sempre,dele.Marighella ficou ,depois
de muito choro ,no meio-fio(a
popular sarjeta).
Comparando com a
frase (anti-demagógica)de Platão na Academia,” Aqui não entre quem não souber
geometria”,todos os partidos comunistas
deveriam ter colocado nos seus pórticos “
Aqui não entre quem não souber Marxismo”,porque quem conhecia marxismo sabia
que estas aventuras não tinham nada a ver
com o que Marx disse,nada.Mas o marxismo
pós-Marx,ficou refém de necessidades
práticas de libertação dos povos,os quais não tinham preocupação nenhuma
em estudar uma teoria que os ajudasse no
seu intento,mas queriam uma que
confirmasse a decisão de
lutar.Neste processo ocupa um lugar especial a figura de Lênin,que
baseado num carta de Marx
endereçada aos narodniks russos,criou a teoria do “elo mais
fraco”.Nesta carta ,Marx concordou com os populistas russos quanto à possibilidade de a Rússia chegar ao comunismo sem passar pelas agruras do capitalismo.Mas tanto
Lênin quanto os populistas não
sabiam,por falta de estudo,que Marx não
admitia um Estado tão grande associado à
implantação do comunismo.Logo, o que ocorreu
na Rússia foi uma revolução nacional(“ socialismo num só país”)muito
semelhante(semelhante)ao nacional-socialismo de Hitler.
Em 1967 se
deu o mais importante Congresso do Partido Comunista Brasileiro,depois
do da fundação.Nele ficou decidido,pela maioria
suposta,que o Partido lutaria no âmbito da democracia,que seria vista então,não como valor meramente tático,como Lênin preconizara em
dois livros:” Duas táticas da Social-democracia” e “ A Doença Infantil do esquerdismo no comunismo”,mas
como valor estratégico(não sei se esta palavra
identifica a democracia como
finalidade em si ,objetivo em si dos
comunistas,ou seja,lutam pela
democracia,não sei...).
Esta decisão
aprofundou ainda mais a divisão
da esquerda,com uns lutando pela
democracia e outros indo para a luta
armada.
Subjaz ,no
entanto,a este embate,a verdade de
que o comunismo,que não
previra 64,estava nos estertores e esta
constatação também aprofundou a necessidade(demagógica)de cooptar
qualquer pessoa,ainda que não entendesse
de marxismo,isto é, o que já era ruim,ficou pior.
Esta divisão no
PCB,foi dando lugar a este oportunismo demagógico,que favorecia aos setores
internos que queriam,não lutar
pela democracia,mas aderir a ela e ao antigo regime,percebendo que o comunismo ia acabar e que eles
precisavam se proteger ou se salvar,ou ganhar benesses do estado capitalista.Eles que eu digo,alguns
militantes do PCB,mais liagdos ao
aparelho(alguns estão aí ainda).
Neste contexto
é que quando houve o retorno de Prestes
,na anistia,ele teve que se demitir do cargo de
secretário-geral.Não era por
causa da democracia,porque
Prestes sempre colocara(inclusive em 67)a democracia como um
dos meios de se chegar ao socialismo(no
rastro da política de Khruschev,pós -56).A razão de sua saída foi o oportunismo ,a aderência,que se tornou o mote
oculto da discussão pós-Prestes entre Partido de Massas e e Partido de Quadros ,na década de 80.
Quando eu mesmo
entrei no Partido,ou pelo menos,comecei a acompanhá-lo, a grande
questão era a permanência de
Prestes ,como um entrave que era ao desenvolvimento do partido,diante do
crescimento do PT,recém-fundado.O tipo de Partido que permitia
este desenvolvimento era o “
partido de Massas”,por oposição ao “partido
de quadros” supostamente defendido por
Prestes e sua porta-voz Anita Leocádia
Prestes.
Contudo esta não
era a verdade.Anita e Prestes defendiam o óbvio:que não podia entrar no Partido
qualquer um.Que o militante devia ser consciente.O que havia então era um oportunismo
aderente,uma versão tupiniquim da “
Reação Termidoriana” que eu vou explicar proximamente.
Os partidos comunistas e o nosso, entraram nesta demagogia capitalista
selvagem em que ,diferentemente da Academia de Platão,entra numa escola quem
paga,entra num partido quem tem voto.No entanto,em Partido Comunista de Massa
ou de Quadros só deve entrar aquele que tem consciência,que sabe o que é
marxismo,que quer entrar também(Partido Comunista não é
para arrumar caso amoroso)e mesmo a massa que vota deve ter consciência e se
elevar na sua cidadania ,na relação com este Partido.
Para mim ,a diluição que houve ,no Partido,depois da
saída de Prestes,como resultado da
vitória do Partido de massas tem um
significado mais grave,porque isto diluiu o Partido,acabando com ele aos
poucos,no que era um dos objetivos da ditadura,no seu final:fazer crescer o
PT,enquanto o PC desaparecia,para diminuir o poder da oposição,pelo seu
estilhaçamento e evitar que os
comunistas se beneficiassem do regime militar.
O projeto era de
Golbery do Couto e Silva e eu já mostrei isto em outro artigo ,no Blog “ A
Ponte”.Não sei não...
